Amazônia: queimadas lançam 12 toneladas de mercurio por ano na atmosfera

queimadaO desmatamento provocado por queimadas na região amazônica brasileira pode gerar um agravante ainda desconhecido. A ameaça acaba de ser esclarecida por uma pesquisa inédita da Unicamp. O estudo revelou que, além da destruição do bioma, as queimadas na região provocam elevadas emissões de mercúrio na atmosfera, elemento altamente tóxico aos seres vivos.

A investigação demonstrou que são liberados, anualmente, 12 toneladas de mercúrio com a queima da vegetação e do solo superficial da floresta. O cálculo considerou a taxa anual de desmatamento da região, estimada em 1,7 milhão de hectares no período entre 2000 e 2010. O trabalho foi coordenado pela oceanógrafa Anne Hélène Fostier, docente do Instituto de Química (IQ) da Unicamp.

“O mercúrio emitido pela ação das queimadas pode ser transportado em escala local, regional ou mesmo global. Isso acontece porque o elemento possui um longo tempo de residência na atmosfera, onde permanece, em média, um ano. Durante este tempo, ele é capaz de ‘rodar’ todo o planeta, razão pela qual é considerado como um poluente global”, alerta a pesquisadora.

Ela desenvolve estudos nesta área há mais de uma década. As primeiras investigações sobre o assunto foram realizadas no final dos anos de 1990 no Estado do Amapá. O último trabalhou de campo na floresta aconteceu em setembro de 2011, em uma estação experimental da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), localizada no Acre.

Anne Hélène Fostier adverte que, uma vez lançado na atmosfera, o mercúrio pode ir para o solo ou para os corpos aquáticos. Nos rios, lagos e oceanos o elemento nocivo passa por um processo de metilação, que o torna ainda mais tóxico.

“A metilação acontece no meio ambiente por via biológica e transforma o mercúrio inorgânico em orgânico, principalmente em metilmercúrio, uma das formas mais tóxicas deste elemento. Quando o metilmercúrio é incorporado pela cadeia alimentar, os riscos de intoxicação são muito grandes. É uma ameaça, sobretudo, para as populações ribeirinhas, que encontram nos peixes a sua principal fonte proteínica”, expõe a docente.

Ainda de acordo com ela, qualquer processo que favoreça a incorporação de mercúrio na cadeia alimentar eleva os riscos imediatos de intoxicações para a população, tornando-se um problema local e regional.

termometro-mercurioEm âmbito global, a preocupação com o poluente impulsionou a assinatura de um tratado em fevereiro último. Conhecido como Convenção de Minamata, o acordo objetiva reduzir as fontes de emissão de mercúrio do planeta. O Brasil é um dos signatários desta convenção. Para entrar em vigor, o acordo necessita da aprovação de 50 países.

O nome do tratado é uma referência ao desastre na cidade de Minamata, no Japão, que intoxicou, por meio do mercúrio na água, centenas de pessoas. A tragédia ocorrida na década de 1920 deu origem à Doença de Minamata, uma síndrome neurológica causada pela intoxicação com o elemento químico.

“A assinatura desta convenção internacional mostra o quanto a problemática das emissões de mercúrio na atmosfera continua sendo uma questão extremamente importante para a qualidade do meio ambiente”, sublinha a docente da Unicamp.

Ela cita pesquisas internacionais que mostram uma multiplicação por três das concentrações de mercúrio na atmosfera no século passado em relação àquelas existentes na era pré-industrial. “Isso aconteceu devido a todas as emissões geradas pela ação do homem”, aponta Anne Hélène Fostier.

REMOÇÃO

A floresta amazônica tem papel imprescindível na remoção global do mercúrio da atmosfera, considera a cientista da Unicamp. Ela esclarece que as partículas de mercúrio presentes no ar são retidas na copa das árvores da floresta, que possuem uma grande área superficial. Outra parte do mercúrio é incorporada pelas folhas, por meio de troca gasosa com o ambiente. O elemento químico é pouco solúvel em água e possui alta volatilidade na temperatura ambiente.

mercurio1“A floresta é um sumidouro do mercúrio presente na atmosfera, proveniente tanto de fontes naturais, como antrópicas. Hoje, as maiores fontes antrópicas – aquelas geradas pela ação do homem – são a queima de combustíveis fósseis e as atividades de mineração, sobretudo a extração do ouro. O mercúrio está presente, naturalmente, nos oceanos e no solo”, explica.

A queima da floresta emite de volta para a atmosfera o mercúrio contido no solo e na vegetação. Conforme Anne Hélène Fostier, pesquisas mundiais mostram que esta é a segunda maior fonte de emissão de mercúrio entre aquelas consideradas naturais. A ação dos oceanos é tida como a primeira.

“Atualmente existem informações sobre a emissão pela queima de florestas em várias regiões do mundo. Porém, na Amazônia brasileira, os dados ainda são escassos, embora a região corresponda a 10% de toda a área coberta por floresta no mundo”, dimensiona a professora da Unicamp.

Ela orientou estudo de mestrado que permitiu um refinamento dos dados obtidos nos últimos anos. A dissertação foi defendida em fevereiro de 2013 pelo engenheiro químico José Javier Melendez Pérez. Entre os principais resultados do trabalho, está o que calcula em oito toneladas a taxa anual de emissão de mercúrio na atmosfera devido à queima da floresta amazônica.

Os dados empregados neste estudo foram adquiridos a partir de experimentos com queimadas programadas realizadas na estação da Embrapa na cidade de Rio Branco, capital do Acre. Foram coletadas e analisadas amostras de solos e vegetação da área experimental.

Smiley nerd Leia a matéria completa no Jornal Unicamp

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