Professor sugere medidas mais drásticas para enfrentar seca no Ceará

Açude Cedro, no município de Quixadá, uma das primeiras obras para combater a seca - Arquivo/Agência Brasil

Açude Cedro, no município de Quixadá, uma das primeiras obras para combater a seca – Arquivo/Agência Brasil

O estado do Ceará tem hoje cerca de 10% da capacidade total de 18 bilhões de metros cúbicos de água. Para garantir o fornecimento de água à população até a próxima quadra chuvosa (período de fevereiro a maio, em que são esperadas chuvas mais densas no estado), os órgãos responsáveis pela gestão dos recursos hídricos determinaram medidas restritivas tanto para a população quanto para o comércio e a indústria.

Segundo o presidente da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), João Lúcio Farias de Oliveira, nas propriedades rurais que trabalham com sistemas de irrigação, houve corte de mais de 70% na oferta de água, que é suficiente apenas para manter culturas permanentes, como banana e goiaba. As indústrias têm meta de restrição de 20% do consumo e são estimuladas a reutilizar a água. Para os moradores da região metropolitana de Fortaleza, existe também a tarifa de contingência de 20% na conta.

O físico Alexandre Araújo Costa, PhD em Ciências Atmosféricas, diz, porém que são necessárias medidas mais drásticas para evitar o colapso hídrico na região metropolitana e no estado. Entre as  medidas sugeridas estão a interrupção do fornecimento de água para as usinas termelétricas que funcionam no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no município de São Gonçalo do Amarante, a 65 quilômetros de Fortaleza, e a redução da vazão de água para a recém-inaugurada Companhia Siderúrgica do Pecém, também localizada no complexo.

Segundo Costa, somente o desligamento das quatro térmicas economizaria 800 litros de água por segundo. Quando do lançamento do Plano de Segurança Hídrica de Fortaleza e Região Metropolitana, o governador Camilo Santana citou como possibilidade a “decisão drástica” de interromper o fornecimento de água para as termelétricas Pecém I e II, as maiores do complexo, que geram, juntas, 1.080 megawatts de energia para o Sistema Interligado Nacional.

“As medidas para preservar os estoques hídricos são insuficientes. Vamos entrar em 2017 contando com a sorte, pois a política de governo atual nos coloca sob elevado risco”, afirma o físico. Ele considera “factível” desligar as térmicas e negociar o adiamento do início das operações da siderúrgica.

Professor da Universidade Estadual do Ceará, Costa afirma que a gestão dos recursos hídricos do estado tem sido “desastrosa” desde as quadras invernosas de 2008 e 2009, quando houve grande  aporte de água nos reservatórios. Ele lembra que, nesse período, e até 2012, houve grande atração de empresas e indústrias para o estado, com a consequente outorga de água para os novos empreendimentos. “Criou-se uma ilusão de que havia água em abundância e que se poderia outorgar água para grandes usuários.”

Com possíveis suspensões do fornecimento às termelétricas e a empreendimentos de fruticultura irrigada e redução da vazão de água para a CSP, o físico estima que poderiam ser economizados 2,5 mil litros de água por segundo, o que daria para abastecer 2 milhões de pessoas.

O presidente da Cogerh, no entanto, diz que as medidas de restrição atuais são suficientes para o abastecimento humano e manutenção das atividades econômicas. Segundo Oliveira, a irrigação é a mais afetada, e as indústrias estão incluídas na meta de redução de consumo.

“A única região do estado que ainda mantém irrigação é o Vale do Jaguaribe [um dos grandes produtores de frutas do Ceará]. A atividade industrial também opera com restrição de água”, afirma Oliveira. Se houvesse a suspensão completa de água para a irrigação e as grandes indústrias, toda a nossa atividade econômica e a geração de empregos no estado poderiam ser afetadas. “Ainda podemos mantê-las dentro das possibilidades atuais”, diz Oliveira.

Fonte: Empresa Brasil de Comunicação S/A – EBC

Grave e urgente, mas nao se fala na desertificacao preocupante no nordeste

Desertificacao"É uma denúncia da maior importância, que está rolando na internet. Há um sem número de órgãos públicos, federais, estaduais e municipais, teoricamente dedicados a cuidar do assunto. Estruturas organizacionais paquidérmicas, chefes, chefetes, muito cacique e pouco índio. Desperdícios de dinheiro e tempo. Resultados pífios ou menos do que pífios. É mais uma vergonha nacional."Por Mário Assis

Como se não bastasse a falta de chuvas, o Brasil vê se alastrar no Nordeste um fenômeno ainda mais grave: adesidratação do solo a tal ponto que, em última instância, pode torná-lo imprestável. Um novo mapeamento feito por satélite pelo "Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas" (Lapis), que cruzou dados de presença de vegetação com índices de precipitação ao longo dos últimos 25 anos, até abril passado, mostra que a região tem hoje 230 mil km² de terras atingidas de forma grave ou muito grave pelo fenômeno.

A área degradada ou em alto risco de degradação é maior do que o estado do Ceará. Hoje, o Ministério do Meio Ambiente reconhece quatro núcleos de desertificação no semiárido brasileiro. Somados, os núcleos de Irauçuba (CE), Gilbués (PI), Seridó (RN e PB) e Cabrobó (PE) atingem 18.177 km² e afetam 399 mil pessoas.

Num artigo assinado por cinco pesquisadores do "Instituto Nacional do Semiárido" (Insa), do Ministério da Ciência e Tecnologia, são listados seis núcleos, o que aumenta a área em estado mais avançado de desertificação para 55.236 km², afetando 750 mil brasileiros. Os dois núcleos identificados pelos pesquisadores do Insa são o do Sertão do São Francisco, na Bahia, e o do Cariris Velhos, na Paraíba, estado que tem 54,88% de seu território classificado em alto nível de desertificação.

Trata-se de um prolongamento que une o núcleo do Seridó à microrregião de Patos, passando pela dos Cariris Velhos. Apenas na microrregião de Patos, 74,99% das terras estão em alto nível de desertificação, segundo dados do Programa Estadual de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca da Paraíba.

"A degradação do solo é um processo silencioso" – afirma Humberto Barbosa, professor do Instituto de Ciências Atmosféricas e coordenador do Lapis, responsável pelo estudo. – "No monitoramento por satélite fica evidente que as áreas onde o solo e a vegetação não respondem mais às chuvas estão mais extensas. Em condições normais, a vegetação da Caatinga brota entre 11 e 15 dias depois da chuva. Nestas áreas, não importa o quanto chova, a vegetação não responde, não brota mais".

ATÉ PETROLINA…

GilbuesEstão em áreas mapeadas como críticas de desertificação municípios como Petrolina, em Pernambuco, que tem mais de 290 mil habitantes, e Paulo Afonso, na Bahia, com 108 mil moradores. Barbosa explica que a desertificação é um processo longo e a seca agrava a situação. Segundo ele, em alguns casos, a situação é difícil de reverter.

Na Bahia, numa extensão de 300 mil km² no Sertão do São Francisco, os solos já não conseguem reter água. Na região de Rodelas, no Norte do estado, formou-se, a partir dos anos 80, o deserto de Surubabel. Numa área de 04 km², ergueram-se dunas de até 05 metros de altura. Segundo pesquisadores, a área foi abandonada depois da criação da barragem da hidrelétrica de Itaparica, usada para o pastoreio indiscriminado de caprinos e, por fim, desmatada. O solo virou areia. O rio, que era estreito, ficou largo, e o grande espelho d’água deixou caminho livre para o vento.

"Não existe dúvida de que o processo de degradação ambiental é grave e continua aumentando" – desabafa Aldrin Martin Perez, coordenador de pesquisas do Insa. – "A população aumentou, o consumo aumentou. Há consequências políticas, sociais e ambientais. Se falassem do problema de um banco, todos estariam unidos para salvá-lo. Como não é, não estão nem aí".

No Sul do Piauí, onde fica o núcleo de Gilbués, são 15 os municípios atingidos. Nos sete em situação mais grave, segundo dados do governo do estado, a desertificação atinge 45% do território de cada um. Em Gilbués, uma fazenda modelo implantada pelo governo do estado conseguiu recuperar o solo e fazer florescer milho. Todos os anos se comemora ali a festa do milho, mas a experiência de recuperação é limitada. Hoje, 10,95% das terras do Sul do estado apresentam graus variados de desertificação.

Em Alagoas, estudos apontam que 62% dos municípios apresentam áreas em processo de desertificação, sendo os níveis mais graves registrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia. A cobertura florestal do estado é tão baixa que Francisco Campello, responsável pelo programa de combate à desertificação do Ministério do Meio Ambiente, chegou a dizer que, se fosse uma propriedade, Alagoas não teria os 20% de reserva legal.

Artigo publicado no site Tribuna da Internet

Novas tecnologias e acesso à água mudam a realidade da caatinga

vidas-secasA trajetória de Fabiano, personagem criado por Graciliano Ramos em Vidas Secas, obra publicada em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos forçada a se mudar de tempos em tempos para lugares menos castigados pela falta de chuva. O clássico da literatura nacional foi durante muitos anos o retrato da realidade de brasileiros castigados pela estiagem no Semiárido brasileiro.

O cenário da caatinga e a seca ainda são os mesmos no sertão de hoje, mas deixar a terra por causa da estiagem não tem sido mais a única alternativa nos últimos anos. Conscientes das limitações impostas pelo Semiárido, moradores da região têm procurado se adaptar e conviver com o clima do campo.

Durante quase 20 anos, a agricultora baiana Maria Eulália, de 62 anos, morou em Salvador. Na cidade, ela criou seis filhos biológicos e cinco adotados. Há sete anos dona Lia, como gosta de ser chamada, retornou ao campo com o marido. Mesmo sem chuva, cumpriu a promessa de retorno ao sertão, como diz a música Asa Branca, de Luiz Gonzaga: “Hoje longe, muitas léguas/ Numa triste solidão/ Espero a chuva cair de novo/ Pra mim voltar pro meu sertão”.

Moradora do Projeto de Assentamento Antônio Conselheiro, localizado na zona rural de Barra, na Bahia, dona Lia descreve seu retorno com brilho nos olhos. “Apesar de gostar de Salvador, preferi voltar para o sertão. Meus filhos já estão criados e quiseram ficar lá, mas meu sonho era voltar para perto do Rio São Francisco. Gosto mesmo é do campo”, conta.

A comunidade de dona Lia é atendida pelo projeto “Transferência de tecnologia de irrigação para fruticultura em níveis de agricultura familiar em perímetros irrigados de assentamento do Semiárido brasileiro”, da Embrapa – unidade Mandioca e Fruticultura. Ao todo, 15 famílias ocupam uma área de 2.845 hectares da antiga fazenda Canal do Rio Grande II. A tecnologia aplicada na localidade permitiu aos moradores trabalharem no plantio de mandioca, umbu, laranja, caju, milho, abóbora, banana, feijão, acerola e hortaliças.

Modos de vida De acordo com Embrapa, o projeto tem início com a identificação da área, feita a partir de demanda das associações dos assentados. Em seguida, é realizado um diagnóstico participativo, onde se define as culturas que serão trabalhadas. Logo após, faz-se a marcação da área e são levadas as sementes e as mudas para início do plantio. Paralelamente, o projeto instala o sistema de irrigação.

 “Ter o rio aqui do lado e não ter o conhecimento da Embrapa era como se não tivéssemos nada. A realidade aqui mudou 100%, havia três anos que não pegava nada no solo aqui. Agora queremos conseguir comercializar, aprender a viver do campo e não ter que procurar emprego fora”, diz Dona Lia.

Segundo o pesquisador de sistemas de produção sustentável da Embrapa, Marcelo Romano, os resultados do trabalho possibilitaram a melhora na segurança alimentar dos moradores da comunidade e ainda viabiliza a inserção dos produtos no mercado local ou institucional, em programas do governo federal de aquisição de alimentos.

“A lógica do trabalho é difundir a irrigação, transferir tecnologia de irrigação e adaptar as condições que eles se encontram. Aliado ao desenvolvimento da irrigação, temos a introdução de materiais genéticos desenvolvidos pela Embrapa de qualidade. Por meio de uma experimentação local, podemos selecionar aqueles que são mais adaptados às condições deles. Particularmente, acho que a gente se sente muito recompensado de trabalhar com esse público, principalmente quando a gente vê as respostas que estamos tendo aqui nesse município”, complementa o pesquisador.

A experiência de dona Lia com a tecnologia repassada pela Embrapa é compartilhada pelo Projeto de Assentamento Fundo de Pasto Ribeirão. A comunidade está localizada a 18 quilômetros de Barra, em uma área de 600 hectares.

Entre as 13 famílias que vivem no local está a de Sandra Santos da Silva, de 30 anos. A jovem agricultora já é mãe de cinco meninas e recebe R$ 502 mensais do Bolsa Família por manter as quatro crianças maiores na escola. Sandra também resistiu ao êxodo devido às secas e não quis sair do campo.

“Meus pais e meus avós sempre gostaram de morar na área rural e eu tomei esse gosto. Mas acontece de muitas vezes perder o estímulo porque se a terra não está dando o sustento, não podemos deixar nossos filhos morrerem de fome”, conta.

 caatingaA mãe de Sandra, a agricultora e líder comunitária Alzira da Silva Santos, de 49 anos nasceu na região e chegou a morar em São Paulo. Retornou há oito anos. “A gente ia e voltava, mas chegou um tempo que decidi ficar aqui de vez. Antes, o mais difícil era a alimentação. Já a seca é sempre igual. Esse ano mesmo não choveu, só teve um ‘tira pó’. Mas aqui é melhor que a cidade, é sossegado, livre da violência. Também há os animais, lá a gente não pode criar”, relata.

A tendência observada nos assentamentos rurais é acompanhada diariamente pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). De acordo com o presidente do órgão, Carlos Guedes, esse é um “novo momento” dentro dos assentamentos devido às mudanças na atuação do Incra junto às comunidades rurais, já que políticas públicas integradas têm garantido condições básicas de vida.

Guedes destacou a parceria com o Ministério da Integração Nacional que vai levar a 30 mil famílias assentadas do Semiárido o acesso aos sistemas de abastecimento de água simplificados, como cisternas, adutoras ou encanamentos, por meio do programa Água para Todos.

“O ano passado investimos junto com o Ministério da Integração R$ 84 milhões para atender essas 30 mil famílias no Semiárido. Essas famílias vão ter acesso à água, em que elas vão ter o seu equipamento de reserva de água por meio de cisterna ou outro sistema que possa se desenvolver em conjunto com a grande obra de infraestrutura de água que está sendo feita pelo PAC”, explicou o presidente do Incra.

Para melhorar as estradas e vias de acesso nas zonas rurais, outra demanda frequente, está sendo preparando um acordo com município que se compromete a comprar a produção do assentamento rural. “O Incra está fechando parceria com municípios de até 50 mil habitantes. Se o município se compromete a comprar produção do assentamento, o Incra ajuda botando combustível na máquina para poder melhorar as vias de acesso dos assentamentos”, explicou.

Fonte: ebc.com.br

Desertificacao – um problema ecologico que comeca a se transformar em problema social

desertificacaoO aquecimento global e os buracos de ozônio estão ficando para atrás na história. Um novo fenômeno está preocupando os ambientalistas e cientistas de todo o mundo: o aumento dos desertos. A cada ano que passa, a área de territórios impróprios para a agricultura e vida está aumentando. A ONU, que começou a lutar contra a desertificação em 1977, não consegue parar este processo.

De acordo com os cálculos dos cientistas, a cada minuto o homem causa a desertificação de 23 hectares de solo. A culpa não é só da indústria de extração e da agricultura, mas também a falta de trabalhos de preservação e restabelecimento. No nível atual da ciência, o homem é capaz de melhorar a situação nos desertos. No entanto não faz nada para isso, disse o vice-presidente da organização ecológica Cruz Verde, Alexander Tchumakov:

“Na zona desértica e semiárida, a umidade que se encontra no ar é suficiente para resolver todos os problemas. No entanto, não há condições para esta umidade se condensar. Por isso, ela passa pelo deserto sem se precipitar, ou se precipitando raramente. Além disso, não há condições para aparecimento de nuvens. No entanto, o homem pode contornar esta situação, como a França fez na Argélia, ou como Israel faz no seu território. Lá, no deserto de Neguev, existe um campo de criação de nuvens artificiais, o que faz com que chova nestes territórios.”

A desertificação é um problema para várias regiões. As zonas mortas começaram a aparecer nos EUA, nos países asiáticos. A pior situação, obviamente, está na África. Lá, a área dos desertos aumenta a uma velocidade assustadora. Além disso, a situação é agravada pela seca dos reservatórios naturais. Há vários projetos que visam protegê-los da seca. No entanto, até agora tais planos permanecem no papel.

O problema ecológico começa a se transformar em social. Se o crescimento dos desertos continuar, vários países da África Central poderão ser compostos somente por terras mortas. Desta forma, o número de refugiados ecológicos irá ultrapassar as fronteiras dos estados vizinhos e, então, será dado início à um novo fenômeno político e social.

Fonte: Voz da Rússia

Especialistas dizem que Nordeste tem água, mas falta distribuição

estiagemA fome, sede e as perdas agrícolas enfrentadas, anualmente, por quase 20 milhões de brasileiros que vivem no Semiárido nordestino, poderiam ser evitadas se existisse um programa de abastecimento de água para a região nos mesmos moldes do Programa Luz para Todos.

O defensor da proposta, João Abner Guimarães Júnior, especialista em recursos hídricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), garante que o novo sistema solucionaria, inclusive, os impactos agravados em anos com estiagem mais prolongada como o atual.

As cidades nordestinas estão enfrentando desde o último mês de janeiro uma das maiores secas dos últimos 30 anos. As previsões meteorológicas indicam que as chuvas só devem cair no Semiárido a partir do ano que vem.

“Tem água para consumo humano e animal, tem água sobrando. Tem estoques de água suficiente para atender plenamente, mesmo nesta época como agora. São 10 bilhões de metros cúbicos armazenados na região acima do Rio São Francisco, em grandes reservatórios”, detalhou Abner. Segundo ele, um sistema adutor com capilaridade seria suficiente para atender a toda a demanda local, comprometendo menos de 20% da disponibilidade hídrica dos reservatórios.

Ao apresentar dados de armazenagem de água no Nordeste, durante audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados sobre o problema da seca na região, o pesquisador destacou que o Semiárido brasileiro é um dos sistemas ambientais mais chuvosos do mundo, mas o acesso à água não está democratizado.

“Os cerca de 60 mil açudes que têm hoje no Nordeste ficam lá, sendo reservados para consumo humano. Enquanto isso, 95% da água se perde em evaporação. Na hora que tiver um sistema integrado que traga água [das grandes barragens] para o abastecimento humano, você libera os pequenos açudes para a produção de feno”, disse, ao criticar a falência do sistema de abastecimento da região.

“A solução para o período de vacas magras tem que passar pelo aproveitamento do período de vacas gordas. Seria o [programa] água para todos, que representaria uma revolução também para a agricultura. Isso custaria cerca de R$ 20 por ano, por habitante. É um custo menor do que o custo do carro-pipa. É um terço do valor da transposição do Rio São Francisco”, afirmou.

A situação do Semiárido nordestino, segundo os especialistas, reflete falhas do cenário nacional. O Brasil concentra a maior parte da água escoada no mundo, mas enfrenta problemas de má distribuição: 72% estão na Região Amazônica; 19% no Centro-Oeste; 6% no Sul e Sudeste; e apenas 3% no Nordeste.

João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, lembrou que em períodos de estiagem mais intensas, metade da população local sofre com a seca e fome. “Oitenta por cento das secas do Nordeste ocorrem no miolão da região. E a seca não é por falta de água, mas pela má distribuição dessa água”, criticou.

Segundo ele, a solução para o problema da seca deve ser baseada em medidas de convívio com as condições climáticas características da região. Para Suassuna não serão grandes obras que apontarão o fim do sofrimento da população afetada. As barragens instaladas na região Nordeste têm potencial de armazenagem de 37 bilhões de metros cúbicos.

“Mas não tem uma política para captar essa água e levar para quem precisa”, criticou. “Há 18 anos sou contra a transposição [da Bacia do Rio São Francisco] porque vai chegar onde já é abundante. Vai abastecer represas nas quais as populações no entorno estão passando sede. Esta população vai continuar sofrendo com a seca e sendo abastecida por caminhões-pipa, mesmo depois da transposição”.

No Ceará, por exemplo, as 8 mil represas poderiam armazenar 18 bilhões de metros cúbicos, segundo Suassuna. Pelas contas do pesquisador, apenas o Açude Castanhão, a maior barragem do Nordeste, seria capaz de atender a todas as cidades cearenses. A capacidade de aproveitamento do recurso também está acima das expectativas nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Fonte: Agência Brasil

62 dias sem chuva: estiagem na capital paulista já é a segunda mais longa da historia

sao pauloA capital paulista deve completar hoje (17) 62 dias sem chuva, mas já tem a segunda mais longa estiagem da história desde ontem, quando a cidade atingiu marca idêntica à registrada em 1964 (61 dias sem chuvas). Se concretizadas as previsões, este será, isoladamente, o segundo inverno mais seco da cidade de São Paulo desde que as estatísticas começaram a ser feitas, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), órgão da prefeitura de São Paulo.

O atual período de estiagem, no entanto, não deve ultrapassar o recorde de 1985, quando se somaram 78 dias de seca, porque uma frente fria vinda do Sul deve provocar chuvas expressivas na capital paulista na próxima quinta-feira (20), segundo Michel Pantera, meteorologista do CGE. Ele informa que, durante todo o mês de setembro, houve precipitação de apenas 0,3 milímetro (mm) por metro quadrado na cidade, em forma de garoas finas.

Para que seja considerada como chuva, é necessário que a precipitação chegue a 1 mm. Este valor é bem abaixo a média para o mês de setembro, que é 78 mm. “Ainda não há como prever, com certeza, se a média será atingida. Mas, a menos que aconteça alguma grande reviravolta, a perspectiva é que fique bem abaixo”, explicou à Agência Brasil o meteorologista Michel Pantera.

A principal consequência da estiagem é a queda da umidade do ar. De acordo com o CGE, nesta segunda-feira, por volta das 11h a umidade na cidade de São Paulo estava em torno de 45%. A previsão para o período da tarde é que se repita o quadro, que tem sido frequente no último mês, de umidade abaixo dos 30%, situação que já é considerada pela Defesa Civil como estado de atenção. O padrão ideal da Organização Mundial da Saúde (OMS) é 60% de umidade relativa do ar.

As temperaturas também estão elevadas para a estação. Na tarde de ontem (16), a capital paulista registrou 33,1 graus Celsius (ºC), o segundo dia mais quente do inverno de 2012, perdendo apenas para o dia 9 de setembro, quando os termômetros marcaram 33,3 ºC. Se considerada a série história, esse domingo apresentou a décima maior temperatura para um inverno desde 1943. O CGE prevê que a máxima chegue aos 34ºC na tarde de hoje, superando a marca mais alta da estação em 2012.

Nas demais regiões do estado de São Paulo, monitoradas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão é que o tempo seco seja quebrado por chuvas isoladas que podem cair nas próximas horas. Na manhã de hoje, as cidades de Ibitinga, na região central, e Barretos, no norte, apresentavam umidade relativa do ar de 24%, índice mais baixo de todo o estado, segundo o Inmet. Apenas o litoral e Vale do Ribeira apresentam umidade considerada adequada, acima de 65%.

Fonte: Agência Brasil

Mudanças climaticas: chuvas intensas em SP e seca nos EUA dao credibilidade ao relatorio recente do IPCC

eventos climaticosApesar de necessitar de mais estudos para reiterar evidências e esclarecer algumas incertezas sobre os níveis de confiança de algumas previsões, as conclusões do Relatório Especial sobre Gestão dos Riscos de Eventos Climáticos e Desastres (SREX, na sigla em inglês) – elaborado e recentemente divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – podem ser corroboradas pela maior ocorrência de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do mundo, como a atual seca nos Estados Unidos, e pelo aumento de gastos realizados nos últimos anos por países como o Brasil para sanar os prejuízos causados por enchentes e deslizamentos provocados por chuvas intensas.

A avaliação foi feita por pesquisadores participantes do workshop “Gestão dos riscos dos extremos climáticos e desastres na América do Sul – O que podemos aprender com o Relatório Especial do IPCC sobre os extremos?”, realizado nos dias 16 e 17 de agosto, em São Paulo.

Realizado pela FAPESP e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com o IPCC, o Overseas Development Institute (ODI) e a Climate and Development Knowledge Development (CKDN), ambos do Reino Unido, e apoio da Agência de Clima e Poluição e do Ministério de Relações Exteriores da Noruega, o objetivo do evento foi debater as conclusões do SREX e as opções para o gerenciamento dos impactos dos extremos climáticos, especialmente nas Américas do Sul e Central.

Uma das principais conclusões do relatório, elaborado pelo IPCC a pedido do governo da Noruega e da Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (EIRD), da Organização das Nações Unidas (ONU), é o aumento na frequência de eventos climáticos extremos no mundo nas últimas décadas em função das mudanças climáticas.

Consequentemente, também aumentaram os impactos socioeconômicos desses fenômenos nos últimos anos devido a maior vulnerabilidade e exposição da população humana a eles, em função de fatores como o aumento desordenado da urbanização em regiões como a América do Sul.

Entretanto, de acordo com os pesquisadores, há incertezas a respeito de se alguns fenômenos climáticos extremos tendem a ocorrer em escala global, devido à escassez de dados.

O relatório indica, por exemplo, que é muito provável um aumento na frequência de dias e noites quentes nos próximos anos em diferentes regiões do planeta, tendência já detectada em observações meteorológicas realizadas em grande parte das regiões Sul e Sudeste do Brasil e no sudeste da América do Sul.

Por outro lado, o documento aponta dúvidas em relação ao aumento da frequência de chuvas intensas em todo o mundo, indicando regiões que apresentam aumento e outras onde ocorreu redução do evento climático – o que impossibilita generalizar a conclusão de que o fenômeno deve acontecer mais frequentemente em todo o planeta.

Contudo, as chuvas torrenciais em São Paulo com maior frequência nas últimas décadas indicam que têm ocorrido mais fortes precipitações de chuvas, pelo menos em escala regional.

“Se ainda há incertezas sobre a tendência de aumento da frequência de chuva em escala global, no caso de São Paulo não restam dúvidas de que as chuvas intensas têm aumentado muito na cidade nos últimos 50 ou 70 anos”, disse Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e do IPCC e um dos autores do SREX.

“Hoje temos três vezes mais chuvas intensas, que causam enchentes e desastres em São Paulo, do que há 70 anos. E as evidências de que esse tipo de evento climático extremo ocorre com maior frequência na capital paulista estão muito bem documentadas”, afirmou Nobre.

Em função de existir evidências mais concretas e consistentes do aumento na frequência de chuvas intensas em São Paulo nas últimas décadas, de acordo com Nobre, a cidade poderia servir como um laboratório excelente para a realização de estudos que relacionem os impactos socioeconômicos causados pelo aumento da frequência de eventos climáticos extremos com o nível de exposição e vulnerabilidade das populações a eles, de modo a reiterar as conclusões do IPCC.

“Seria muito interessante realizar pesquisas para quantificar as enormes mudanças climáticas em São Paulo causadas pelo impacto da urbanização e do efeito de ilha urbana de calor na cidade”, avaliou Nobre.

Fonte: Agência FAPESP

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